Caminhada: Espanha - Peregrinação a Santiago de Compostela



2011 - de 24/08 a 02/10

O que chamamos de Caminho de Santiago de Compostela é, na verdade, um conjunto de rotas com destino ao o túmulo do Apóstolo de Jesus Cristo, Tiago Maior que se encontra na Catedral da cidade de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha. Aqui relatamos nossa experiência em caminhar por mais de 800 quilômetros nessa milenar rota.

Roteiro percorrido à pé.
Depois que um pastor de ovelhas chamado Pelaio, guiado por uma constelação de estrelas, nos idos de 813, descobriu os restos mortais do apóstolo, foi edificada no local uma capela e os europeus começaram a peregrinar em direção ao túmulo.

As peregrinações foram crescendo com as pessoas saindo de suas casas e, por onde trilhava a maioria dos peregrinos surgiram rotas, sendo a principal a denominada de Caminho Francês, que parte de Saint-Jean-Pied-de-Port, nos Pirineus franceses.

Para muitos europeus ainda é comum saírem de suas casas já caminhando. Seguem pelas rotas pré existentes por conveniência da estrutura de apoio: albergues, locais para refeição e sinalização indicativa por meio de setas. Alguns desses peregrinos retornam para suas casas caminhando.

A maior parte das pessoas que trilha alguns dos caminhos que levam a Santiago de Compostela começa a fazê-lo bem antes de iniciar a caminhada física ou da viagem de ida ao ponto de partida. A decisão de reservar uma determinada quantidade de dias de suas vidas para preparar-se e para percorrer todos aqueles quilômetros já faz parte do caminho e são de importância fundamental.

É nessa fase que a mente é lapidada sobre os diversos aspectos que envolvem essa empreitada tão relevante e, para que não seja prejudicada é necessário tratar da questão financeira, da preparação do corpo e da mente, decidir sobre a época do ano mais propícia,  assim como sobre os equipamentos e vestuário a levar. É importe buscar antecipadamente informações sobre os locais que serão visitados.

Leia nosso relato da experiência que vivemos em 33 dias caminhando por onde as setas nos guiavam ....



A Clarice já havia percorrido o Caminho Francês no ano de 2007 juntamente com alguns amigos da ACACSC (Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela).

No ano de 2011 mais de 183 mil pessoas percorreram alguma das rotas do Caminho de Santiago. Dessas, mais de 153 mil o fez à pé e 19.416 iniciaram em Saint-Jean-Pied-de-Port. E foi justamente nesse ano que a Clarice e eu fomos juntos fazer o Caminho francês de Santiago de Compostela.

Fizemos todo o planejamento sozinhos, contando com a experiência obtida por frequentarmos a  ACACSC. Adquirimos as passagens diretamente da empresa aérea sem a intermediação de agências de turismo.

Financeiramente, sabíamos que no caminho o peregrino gasta cerca de € 30,00 por dia (pernoite, lanche e uma refeição). Levamos valores extras para eventuais emergências e despesas extras.

Quanto a preparação física, além do fato de que já fazíamos caminhadas longas dentro da programação da ACACSC e frequentávamos academia, passamos a fazer, sob a orientação dos professores, exercícios voltados às partes do corpo que seriam mais exigidas; pernas, ombros e coluna.

Escolhemos o final do verão, entrada do outono europeu para efetuarmos a caminhada pelo fato de normalmente ser uma época de menos chuvas e de frutas. Saímos de Florianópolis no dia 24/08/2011 para iniciar a caminhada no dia 27.

Em junho havíamos percorrido o Caminho da Ilha já com a mochila preparada da mesma forma que a levaríamos para a Espanha, o que já serviu como preparação (veja postagem específica neste blog). As botas já estavam amaciadas.

A Espanha foi inicialmente habitada pelo povo Ibero e em algumas regiões os Visigodos, os Fenícios, os Gregos e os Cartágenos também ocuparam territórios. Já no início da era cristã, os romanos dominaram seu território por cinco séculos, quando os mouros tomaram a Espanha e a dominaram por cerca de sete séculos, lançando suas influências. Finalmente os cristãos expulsaram definitivamente os muçulmanos. Essas sucessões de dominações deixaram marcas que veríamos por todo o caminho.

Administrativamente a Espanha é dividida em Comunidades Autônomas que se subdividem em Províncias, nas quais se agrupam as cidades e vilas. Durante nossa caminhada passaríamos por quatro Comunidades Autônomas: Navarra, La Rioja, Castilla y León e Galicia.

Nossa viagem aérea foi pela Ibéria, saindo de Florianópolis com destino a Pamplona e conexões no Rio de Janeiro e Madri. Despachamos nossas mochilas em Florianópolis diretamente para Pamplona.

Despedida em Florianópolis
No aeroporto de Pamplona tomamos um táxi cuja despesa dividimos com uma eslovena que veio de Madri no mesmo voo. O custo total do táxi foi de € 90,00. Havia a opção de irmos até a rodoviária local e pegar uma van com custo mais baixo.

A saída de Florianópolis havia se dado num dia de muito frio e chuva e a chegada a Saint-Jean-Pied-de-Port, no dia 25/08/2011, 23 horas depois, com sol e calor.

Tendo em vista que em 2007 a passagem da Clarice por Saint-Jean-Pied-de-Port  fora muito rápida, decidimos reservar um dia a mais para conhecer a cidade, aproveitando também para fazer a adaptação ao fuso horário. Foi uma excelente decisão, visto que é uma cidade com uma área medieval bem preservada, linda e aconchegante.

Conhecemos um pouco da cidade na tarde do primeiro dia e nos hospedamos em um hotel. No segundo dia fomos até o escritório de acolhida dos peregrinos onde obtivemos informações e planilhas do caminho, o carimbo em nossas credenciais e providenciamos nossa vaga no albergue municipal.

 

 


Naquele dia compramos capas novas e cajados numa loja instalada numa edificação datada de 1510. O Brasil mal havia sido descoberto quando ela foi construída.  É muito interessante ouvir o sotaque francês por todo lado.

No período da tarde visitamos outros pontos da cidade, passeamos no trenzinho, fizemos um lanche e nos recolhemos cedo ao albergue para já irmos nos acostumando aos horários dos peregrinos. Dormir às 20h30m lá era o mesmo que ir para a cama no Brasil às 15h30m, o organismo ainda estranhava. Em nosso alojamento conseguimos identificar um holandês, um coreano, um japonês e vários franceses.


Começava o caminho.

OBS: As distâncias citadas abaixo referem-se ao deslocamento entre as cidades e não computam os deslocamentos dentro das cidades nas visitas aos pontos de interesse e para alimentação.


1º Dia - 27/08/2.011 [sábado] - 24,7 km no dia.
Saint-Jean-Pied-de-Port [França] - Roncesvalles [Espanha - Navarra]

Nosso primeiro dia no caminho.


Arrumamos a mochila e fomos ao refeitório do albergue onde Mme. Janinne aguardava os peregrinos com café pronto. Serviu-nos pães franceses fatiados e café em uma tijela (boll) que é o costume na França. Sobre a mesa havia manteiga, mel e doce de laranja.

Deixamos o albergue pouco antes da sete horas, entregando a Mme Janinne nossas capas usadas para que doasse a quem necessitasse. Descemos a Rue de La Citadelle e cruzamos o Portal da Espanha na grande muralha medieval com o dia ainda escuro. Foram nossos primeiros passos no Chemin de St. Jacques, que é como os franceses chamam o Caminho de Santiago.



Após passar pelo Portal o caminho já se inicia em subidas nos Pirineus e começou a sobrar roupa. Paramos para tirar casacos. Neste momento os sinos da capela tocaram sete badaladas e o céu iniciava a clarear. Quanto mais andávamos mais subíamos na desafiante cordilheira. Cada passo dado significava um a menos a vencer. Neste momento era impossível não pensar nos quase oitocentos quilômetros que tínhamos pela frente.

Junto conosco, em Orrison chegaram os primeiros pingos de chuva. Foi o tempo de entrar no bar para nos protegermos antes da chuva aumentar. Fizemos um lanche e seguimos.

Poucos passos adiante a chuva recomeçou e tivemos que colocar as capas. Já ali, começamos a entender que os peregrinos trocam de posição sempre. Algumas pessoas pelas quais havíamos passado anteriormente, nos passavam quando estávamos parados para colocar as capas ou para tirar fotos.

Mais acima encontramos vários rebanhos de ovelhas, cada grupo com uma pintura colorida no lombo, com seus sinos quebrando o silêncio da montanha.

Neste primeiro dia, apesar de árduo, o caminho é muito bonito. Há uma parte de estrada e outra de floresta quando se passa na divisa entre França e Espanha.


Ainda na floresta, na descida, faltando aproximadamente três quilômetros para chegarmos a Roncesvalles a Clarice escorregou e ao cair apoiou-se no braço esquerdo e sentiu o pulso. Por sorte não quebrou, mas inchou e ficou dolorido.

Chegamos às 17 horas na Real Colegiata de Santa María de Roncesvalles, com seu albergue inaugurado em março daquele ano, contando com ótimas instalações, inclusive uma cozinha para uso dos peregrinos, um ambiente com máquinas para venda de lanches e bebidas e um enorme refeitório.

O albergue possui acomodação para 183 peregrinos. Os banheiros são de uso misto e a privacidade só se consegue nos boxes dos sanitários ou das duchas.

Participamos da missa das 19 horas onde os padres chamam os peregrinos para se apresentarem no corredor central, junto ao altar e fazem uma benção a todos para que tenham uma boa jornada.


2º Dia - 28/08/2.011 [domingo] - 20,7 km no dia.  45,4 km acumulados.
Roncesvalles [Navarra] - Zubiri [Navarra]

Fizemos o lanche no albergue e começamos a caminhar às 6h45m numa manhã fria.

O caminho inicia-se em um bosque numa trilha ladeada por pés de amoras silvestres que começamos a provar ali.


Cruzamos por lindos vilarejos. A Navarra tem uma arquitetura muito interessante, típica e muito bem cuidada. São comunidades com muita organização. Há feno recolhido nos campos nesta época do ano para abastecer o inverno que é rigoroso. As casas já possuem um bom estoque de lenha empilhadas no lado de fora.

Caminhando ali, ficou claro para mim que o Caminho de Santiago é de congregação. Há pessoas de todos os tipos, origens e línguas unidas num fim comum. Todos se esforçam para buscar a compreensão dos demais num clima de despojamento e respeito.

Ponte com possibilidade de travessia quando de enchente
A lembrança de nossa filha Marina era uma constante em nossas mentes. Estávamos o tempo todo imaginando o que ela estaria fazendo a cada momento. Eram cinco horas de defasagem no fuso horário. Assim, quando começávamos a caminhar, normalmente por volta das 6h30m, no Brasil era 1h30m. Daí imaginávamos ela dormindo e essa era uma imagem vívida em nossa mente, fácil de reproduzir. Fazíamos nossa oração por ela, pedindo a proteção de seu Anjo da Guarda. Isto ocorreria todos os dias.

Por ser domingo o movimento de peregrinos era grande porque os Espanhóis e franceses têm o hábito de fazer trechos do Caminho de Santiago nos finais de semana, mas a caminhada foi tranquila. A Clarice ainda sentia dor no pulso.

O albergue municipal de Zubiri está instalado em uma antiga escola e possui amplo pátio com mesas para lanchar ou travar conversas com outros peregrinos.

Roupas foram lavadas e penduradas no varal existente no pátio.

Experimentei pela primeira vez o Menu do Peregrino, refeição disponível em todo o caminho e que é composta de um prato de entrada (escolhido dentre várias opções), mais um prato principal (também escolhido dentre várias opções), pão, sobremesa e vinho ou água para acompanhar. Nossa escolha foi sopa de ervilha, carne ensopada, sorvete e caña (chopp), pelo que pagamos € 21,50 o casal.

Antes de nos recolhermos ao albergue, no início da noite, fizemos um lanche de bocadillo (sanduiche) com chorizo (linguiça fina), na barra (balcão) de um bar, hábito comum entre os espanhóis.


3º Dia - 29/08/2.011 [segunda] - 20,2 km no dia. 65,6 km acumulados.
Zubiri [Navarra] - Pamplona [Navarra]

Acordamos bem cedo. Os banheiros e a cozinha ficavam numa edificação separada pelo pátio.  lanchamos café solúvel com um pedaço de rocambole que havíamos adquirido na véspera.

Saímos quando ainda estava escuro porque assim antecipávamos a chegada fugindo do sol da tarde.

Iluminávamos o caminho com nossas lanternas. Próximo a nós caminhavam duas paulistas, Ana e Carol, cada uma em seu rítmo.

O caminho deste dia era feito de bosques, o terreno árido de uma fábrica de cimentos e mais bosques, além de vários povoados com a mesma bela arquitetura.

Comemos muita amora silvestre e vi, pela primeira vez, um pé de nozes.

Apesar de ser segunda-feira ainda havia muitos peregrinos no caminho. Eram casais, famílias, amigos e pessoas sozinhas. Havia duas famílias que chamaram nossa atenção. Numa delas as mulheres adultas estavam vestidas com o uniforme do Barça e uma moça caminhava ouvindo música pop num amplificador de iPod instalado na lateral de sua mochila. A outra família era composta pelo casal e duas crianças. Pareciam escoteiros.



Encontramos pela segunda vez um casal de velhinhos que a gente julgava que não chegariam no albergue, mas ao final da tarde lá estavam eles.

Nos primeiros dias ainda impressionava ver as pessoas peregrinando, vindas de todas as partes do mundo para trilhar esse caminho. Em cada cabeça uma motivação, mas a meta era a mesma, o sepulcro do Apóstolo São Tiago Maior na Catedral de Santiago de Compostela.

Pamplona
A chegada em Pamplona se dá por meio de uma ponte levadiça num paredão de pedras no centro antigo. Sentimo-nos chegando numa aldeia medieval. Ficamos no albergue Jesus e Maria que dispunha de mais de cem leitos e, mesmo assim, vimos algumas pessoas deixando de encontrar vagas e tendo de buscar outros albergues na cidade. Este albergue está situado no centro medieval da cidade com ruas estreitas e edificações dos dois lados. Muito bonito, remetendo-nos a uma época passada.

Pamplona é a capital da Comunidade Autônoma de Navarra.

Visitamos a Igreja da Virgem do Caminho que é belíssima e que tem em seu piso placas de madeira de carvalho que são as tampas de túmulos. Os altares são riquíssimos e com detalhes em dourado.


Provavelmente por ser uma cidade com várias universidades, chamou-nos à atenção a grande quantidade de gente jovem e casais novos com crianças na primeira infância em Pamplona.

Aproveitamos bem a tarde para visitar todo o centro. Peregrino é assim, caminha de uma cidade a outra e quando chega sai para caminhar para conhecer a cidade. Impressionou-nos a diversidade de tapas e pinchos expostos nos balcões dos bares.

Recolhemo-nos cedo e, já deitado às 21h45 podia ver pela janela que o dia começava a escurecer. No dia seguinte levantaríamos cedo novamente.


4º Dia - 30/08/2.011 [Terça]  - 27 km no dia. 92,6 km acumulados.
Pamplona [Navarra]  - Puente La Reina [Navarra]

Saímos às 6h40m. A cidade medieval com as luzes amareladas dos postes imitando a tonalidade das lamparinas antigas tingia a cidade com um ar de mistério. Nossos passos e o cutucar dos cajados no piso complementavam a cena. Mais ao longe os passos e toques de cajados de outros peregrinos ecoavam abafados no silêncio da cidade.

Após sairmos da cidade atravessamos campos de girassóis que já estavam secos, aguardando a colheita.



Por volta das 10 horas iniciamos a subida ao Alto do Perdão. O sol castigava e não havia sombras. Lá em cima paramos junto ao monumento ao peregrino, elaborado em chapas de ferro recortadas na silhueta de peregrinos caminhando. Paramos ali para comer uma fruta antes de seguir.










Após a lenta descida num perigoso declive com muitos pedregulhos; caminhamos, almoçamos e provamos amêndoas por nós colhidas no caminho.










Esticando o caminho em mais ou menos 4 quilômetros, ainda sob sol muito forte, passamos por Eunate que fica numa variante do caminho. Ali visitamos a Igreja de Santa Maria de Eunate, uma edificação românica, com planta octogonal, construída na segunda metade do séc. XII para servir como templo funerário aos peregrinos e que tem sido para muitos o ponto mais místico do caminho. Quando intacta possuía 100 portas.



Nestes primeiros dias nossa mente ainda estava muito ligada ao início do caminho, ao quanto percorrêramos. Poucos dias depois descobriríamos que já passaríamos a pensar no destino, a Catedral de Santiago de Compostela. Nossa meta.

Passamos por Obanos antes de chegar a Puente La Reina.

Após o banho fomos conhecer a mais famosa ponte do caminho, uma ponte medieval construída sobre arcos que refletidos na água do rio formam círculos perfeitos.


A cidade de Puente La Reina também é conhecida pelo fato de ser a junção das duas principais rotas do Caminho de Santiago, o caminho Francês e o Aragonês.


5º Dia - 31/08/2.011 [Quarta]  - 22,2 km no dia. 114,8 km acumulados.
Puente La Reina [Navarra]  - Estella [Navarra]

Mais uma vez saímos bem cedo, antes de o dia clarear. À nossa frente os fachos da luz de nossas lanternas indicavam o caminho.

Para se perder por aqui a pessoa precisa estar muito distraída porque há indicação do caminho por todo lado. Se seguir as setas não fosse suficiente, bastaria seguir a rota das amoras silvestres. Estávamos no quinto dia e elas margeando o caminho o tempo todo.

Apesar de algumas nuvens nos protegerem do calor do sol, o mormaço parecia querer nos cozinhar. O filtro solar fator 30 era pouco e o trajeto deste dia oferecia pouca sombra de árvores.


Passamos por vários vinhedos às margens do caminho. Não havia cercas ou outro tipo de proteção e mesmo assim todos respeitavam as plantações como propriedades alheias. É interessante perceber que durante a caminhada quase não se vê as pessoas trabalhando nas propriedades.

Em Mañeru um senhor indicou a placa de uma rua, a Calle Forzosa indicando para que a fotografássemos e explicou que a rua tomou este nome porque era o trajeto para o cemitério e exigia "força" para vencê-la. Quando estávamos saindo desta cidade um cãozinho nos acompanhou até o vilarejo seguinte onde outro senhor o reteve e disse que ele já era conhecido por acompanhar os peregrinos, o que obrigava seu dono a vir nos finais de tarde buscá-lo.

Passamos por pés de nozes, figos, maçãs, azeitonas, castanhas portuguesas, peras e muitos outros.

Os peregrinos com quem vamos nos encontrando desde o começo da caminhada já passam a se reconhecer e a cumprimentar de forma diferente do simples buen camino que é a expressão dita por todos que passam pelos peregrinos. Em todo o trajeto do caminho há muito respeito com os peregrinos.

Chegamos a Estella por volta da 15 horas, instalamo-nos no albergue, tomamos banho e saímos para passear. Nessa hora as cidades param, tudo é fechado por conta da siesta - até os bares e as farmácias.

Na mesa da cozinha do albergue, onde eu fazia algumas anotações em meu bloco de rascunho, via num lado da cozinha dois orientais preparando uma refeição, partindo cebola tomate e pimentão. Sentada à mesa uma moça loira, alemã comendo caneloni ao sugo (comprado pronto e aquecido no microondas). Ao lado dela um americano comendo um sanduiche com coca-cola ligth. Mais ao lado, um senhor que me pareceu espanhol estava chupando laranja. No outro extremo um senhor e uma moça conversavam em francês enquanto preparavam massa com azeitonas e presunto. Cada um que acabava a refeição se levantava e lavava sua louça.

A Clarice estava no quintal aos fundos do albergue conversando com as brasileiras Carol e Ana. Ela recebeu a atenção de Javier, um espanhol que tem conhecimentos de fisioterapia e está fazendo o caminho pela quarta vez. Ele fez massagem e curativos para a tendinite que ela tem na perna.


6º dia - 01/09/2.011 [Quinta]  - 21,1 km no dia. 135,9 acumulados.
Estella [Navarra] - Los Arcos [Navarra]

Começou setembro.

Ainda no albergue, na movimentação dos peregrinos se arrumando, o Javier fez um atendimento à tendinite da Clarice e com duas tiras de esparadrapo fez um tracionamento na perna esquerda, impedindo que durante a caminhada ela efetuasse o movimento com a ponta do pé para baixo.

Partimos às 6h30m com previsão de chuva e céu escuro, caminhando pelas medievais ruas de Los Arcos ouvindo nossos passos ecoarem no silêncio da madrugada.

Passamos então pela parte moderna da cidade e na saída do centro urbano já víamos chuva nas montanhas ao longe e o vento trazia nuvens negras sobre nós, o que nos levou a colocar as calças de chuva.

Aproximadamente três quilômetros depois de sairmos da cidade passamos por Irache, onde tem uma vinícola que mantém um portal com uma torneira com água e outra com vinho à disposição dos peregrinos. Porém, como ainda estava muito cedo a torneira de vinho ainda não estava funcionando.

Apesar de estar nublado e ventando, estava calor. Com o passar do tempo o clima mudou e o sol se impôs mais uma vez e por ser o trajeto de muitas subidas tivemos que retirar as calças de chuva.

Passamos por muitos vinhedos e pequenos vilarejos.



Na parte final do trajeto deste dia o caminho é descampado e o sol estava inclemente.

A tendinite da Clarice piorou fazendo com que ela caminhasse os últimos quilômetros sob duras penas, passo-a-passo, fazendo uso de dois cajados (o dela e o meu).

Depois de nos instalarmos no albergue municipal retornamos ao centro da cidade e fomos almoçar em um restaurante com mesas dispostas numa praça em frente a igreja, sob sombrinhas.

Retornamos ao albergue para o banho e lavação de roupas. Mais tarde saímos para fazer lanche e comprar mantimentos para o café da manhã do dia seguinte. Aproveitamos para visitar a riquíssima igreja e passeamos pelas estreitas ruas.

Ao final da tarde (na verdade já noite, mas ainda claro) comemos melocoton (pêssego) no pátio do albergue enquanto conversávamos com a Ana e a Carol.


7º dia - 02/09/2.011 [Sexta]  - 18 km no dia. 153,9 km acumulados.
Los Arcos [Navarra] - Viana [Navarra]

Os guias do Caminho normalmente estabelecem para este dia um percurso de 28 km, até Logroño. Tendo em vista que a Clarice ainda sentia muito a tendinite, decidimos caminhar somente 19 km, parando em Viana, a última cidade da Navarra.

Saímos cedo, 6h15m, ainda escuro, feito vagalumes com a lanterna na cabeça iluminando nosso caminho. Antecipando a saída fugíamos do sol escaldante que vinha se apresentando todos os dias até aqui.

Caminhávamos devagar para não forçar a tendinite da Clarice. No trajeto paguei a água mineral mais cara do caminho até aqui. Custou 1.00 a garrafinha de 330 ml, justamente num bar chamado Brasília. Descobrimos depois que um quilômetro adiante havia uma vila com muitos bares com preços bem mais honestos.



Faltavam 15 minutos para as 13 horas quando entramos em Viana que se mostrou apaixonante. A principal rua da cidade, repleta de bares e restaurantes com mesas na rua estava tomada pelos habitantes e turistas num clima de alegria tamanha que chegamos a pensar que fosse dia de festa. Descobrimos depois que é sempre assim. os espanhóis gostam de sair e ir a bares e restaurantes celebrar a vida.

Depois de passar no albergue para reservar as acomodações saímos para almoçar. Foi minha primeira paella em terras espanholas, acompanhada do melhor pão que comi na Espanha. Na mesa ao lado um grupo de cariocas também almoçava. No grupo estava Terezita que já havia percorrido o Caminho da Ilha, em Florianópolis.

Após o almoço retornamos ao albergue para o banho, lavação de roupa e siesta.

Mais tarde saímos para descobrir Viana, visitando sua igreja com obras artísticas inestimáveis. No final da tarde as ruas já estavam cheias de novo com as pessoas conversando, comendo, tomando cerveja, vinho ou sangria. Surpreende o fato de que não são só jovens. Os idosos se arrumam como se fossem a uma festa e vão para os bares e restaurantes.

No albergue soubemos que no dia seguinte a família torcedora do Barça e a família de escoteiros fariam seu último percurso do caminho da temporada. Depois de uma semana caminhando já reconhecíamos muitos caminhantes e os apelidávamos utilizando alguma característica marcante para identificá-los e facilitar a menção a cada um nas conversas.

Nessa noite dormimos pela primeira e única vez em um triliche.

Viana. Uma cidade para voltar um dia.


8º dia - 03/09/2.011 [Sábado]  - 10,9 km no dia. 164,8 km acumulados.
Viana [Navarra] - Logroño [La Rioja]

Choveu bastante por toda a noite. Pela manhã garoava.

Às 6h30, já prontos para sair desabou uma chuvarada. Saímos mesmo assim, vestindo calça de chuva e capa. A iluminação das lanternas não se mostrava suficiente para iluminar o caminho e nos mostrar as poças d'água.

Caminhamos o tempo todo sob chuva. Só nos demos conta que já estávamos na Comunidade Autônoma de La Rioja quando já estávamos em Logroño, sua capital.


Chegamos a Logroño às 9 horas e a chuva não parara nenhum momento. A Clarice ainda sentia dores na perna e, assim, não tinha como seguirmos. Optamos por pernoitar ali e aguardamos a abertura do albergue que se daria às 12 horas. Tentamos nos proteger numa pequena marquise. Enquanto estávamos ali conhecemos Tereza Cristina, paulista de Jundiaí que estava fazendo o caminho sozinha.

No momento da abertura do albergue o hospitaleiro que nos vira ali em frente desde cedo nos obrigou a ficar descalços e a lavar as botas num tanque que ficava na rua, na chuva, passando todos os outros peregrinos na nossa frente. Não conseguimos entender o porquê de tamanha estupidez. Nem nossa argumentação sobre a tendinite da Clarice mudou sua postura.

Tínhamos intenção de ir a um posto de saúde, mas os passaportes de todos os peregrinos foram retidos na recepção.

Depois de instalados tentei conseguir com o hospitaleiro algum jornal velho (periódico viejo) para colocar nas botas para secá-las, mas o mal educado hospitaleiro (tinha mais a postura de um carcereiro ["carcelero"]) levantou os olhos do computador, bufou e disse que não tinha nenhum, apesar de ao seu lado haver uma enorme pilha de jornais. Fiquei me perguntando o porquê de Logroño ter uma pessoa nesse cargo se ela odeia peregrinos. A capital de La Rioja merecia um hospitaleiro mais bem preparado.

Quando saímos para almoçar junto com Tereza Cristina aproveitei para comprar um jornal. Presenciamos os convidados de duas cerimônias de casamento muito pitorescas. Depois do casamento os convidados ficaram nos restaurantes da praça para almoçar.

Meu Menu do Peregrino teve no primeiro prato paella mista, no segundo bacalhau a la Rioja, flan, de sobremesa e vinho para acompanhar. A Clarice escolheu  alubias rojas (sopa de feijão vermelho), atum e sorvete.

No final da tarde todos os bares de Logroño estavam lotados pelos moradores aproveitando o sábado.


9º dia - 04/09/2.011 [Domingo]  - 19,1 km no dia. 183,9 km acumulados.
Logroño [La Rioja] - Ventosa [La Rioja]

Saímos muito aborrecidos de Logroño pela péssima hospitalidade no albergue municipal. Tereza Cristina seguiu conosco. Também a Mary, uma americana de Ohio se juntou a nós na saída, mas sabíamos que seria por pouco tempo uma vez que ela caminhava rápido e nós tínhamos que fazer o ritmo que a tendinite da Clarice permitia.

A saída da cidade é muito interessante e se atravessa parques. Já no caminho até Navarrete passa-se praticamente só por propriedades rurais onde predomina o cultivo de uvas vinícolas.




Em Navarrete paramos para um lanche e fizemos uma visita na igreja. O ambiente estava na penumbra e olhávamos distraidamente seus altares quando as luzes começaram a se acender e a refletir os riquíssimos altares dourados. Atualmente a maioria das igrejas do caminho fica com uma iluminação de penumbra e possuem um sistema de iluminação extra que funciona a partir de um aparelho que acende uma iluminação especial para os pontos mais importantes quando se coloca uma moeda (normalmente  1) numa máquina caça níqueis. São tantas igrejas que a gente acaba não pagando essa importância em todas. Mas essa de Navarrete vale a pena pagar porque é muito bela. Parece um museu.

Percorremos mais uns seis quilômetros até Ventosa. Chegamos antes da abertura do albergue e tivemos que aguardar numa fila, sentados no chão bem ao estilo peregrino. Na entrada ficamos surpresos com a boa organização do albergue. Fomos recebidos num ambiente suavemente aromatizado com incenso e música de fundo. Os hospitaleiros de uma educação sem tamanho instruíram a todos que só se levantassem no dia seguinte depois que eles chamassem.

Saímos para almoçar num restaurante que nos surpreendeu positivamente. Vale cada centavo de euro pago nele. Ficamos numa mesa voltada para um quintal com grama, árvores e videiras carregadas com cachos caindo em frente à janela onde estávamos. A comida era muito boa e o vinho, servido em jarra e à vontade, também.

Após o almoço aproveitamos para conhecer a pequena vila e voltamos ao albergue para tomar banho, lavar as roupas e descansar.



10º dia - 05/09/2.011 [Segunda]  - 17,6 km no dia. 201,5 km acumulados.
Ventosa [La Rioja] - Azofra [La Rioja]

Acordamos ao som de cantos gregorianos vindos do aparelho de som dos hospitaleiros. Foi bem interessante.

Considerando que a Clarice não queria ficar um ou dois dias parada para tratar da tendinite, optamos por fazer trechos menores na esperança de que ela se curasse.

A caminhada foi fácil, ao lado de muitos vinhedos.

Passamos por Nágera rapidamente e não tivemos a oportunidade de visitar a igreja porque estava fechada.

Enquanto caminhávamos passou por nós um grupo de senhoras andando de bicicleta, todas vestidas com roupas e equipamentos adequados ao ciclismo. Não eram peregrinas.

Chegamos a Azofra pouco depois do meio-dia e nos instalamos no albergue municipal, muito bom e com hospitaleiros simpáticos. Este albergue não utiliza beliches são quartos com duas camas. Pela primeira vez no caminho a Clarice e eu ficamos sozinhos.

No restaurante onde fomos almoçar encontramos as ciclistas e a Clarice conversou com elas. Era um grupo de 25 turistas norueguesas, com idade entre 55 e 70 anos e estavam fazendo um circuito de uma semana. Uma lição de vida.

A tarde foi reservada para as rotinas de banho, lavação de roupas, anotações, descanso e a primeira visita à Internet usando os computadores normalmente existentes nos albergues que funcionam com moedas. São lentos e com teclado difícil de acertar acentuação. No albergue experimentamos também uma cadeira que faz massagens nos pés e pernas em troca de uma moeda.

Nessa viagem fizemos a opção de não levar telefone celular porque além de muito caros os serviços, queríamos nos sentir mais integrados ao caminho, o que se mostrou uma ótima decisão porque, quando queríamos, fazíamos contato com a família utilizando cartões telefônicos internacionais.


11º dia - 06/09/2.011 [Terça]  - 15,1 km no dia. 216,6 km acumulados.
Azofra [La Rioja] - Santo Domingo de La Calzada [La Rioja]

Dia de caminhada fácil sempre ladeando vinhas. O sol não chegou a incomodar porque chegamos cedo.

 


A satisfação de caminhar dia após dia atravessando um país é indescritível. Questionávamo-nos o quanto teríamos deixado de ver e sentir se estivéssemos viajando de carro ou outro meio de transporte.

Ter a consciência de que carregávamos junto a nós, na mochila presa às costas tudo o que precisávamos era o reforço de um aprendizado. Ali, despojados, éramos o que éramos na essência e não o que possuíamos.


O albergue de Santo Domingo de La Calzada é ótimo, recém reformado e contando com muitos serviços. Nos fundos do pátio fica um galinheiro onde estão os galos e galinhas que são usados junto ao altar da igreja nas celebrações, para representação da lenda que diz que; no séc. XIV um peregrino havia sido enforcado injustamente por uma acusação falsa, mas não morreu por intervenção de Santo Domingo que sabia de sua inocência. Por fim, acabou sendo absolvido por um juiz que estava almoçando e, ao receber dos pais do peregrino o pedido de perdão, duvidara do fato do jovem ainda estar vivo, dizendo: "eu o perdoarei quando este galo e esta galinha que estão no meu prato cantarem novamente". O galo e galinha  teriam cantado e o jovem foi libertado.

À tarde a Clarice e a Tereza foram atendidas por um fisioterapeuta. Ele recomendou continuar caminhando com o curativo de tracionamento realizado por Javier em Estella.


12º dia - 07/09/2.011 [Quarta]  - 23,4 km no dia. 240 km acumulados.
Santo Domingo de La Calzada [La Rioja] - Belorado [Castilla y León]

Este foi um dia de muito sol e pouca sombra. Caminhamos muito ao longo de estradas sem árvores.

Passando por Grañon aproveitamos para descansar um pouco.

Ainda passamos por Redecilla del Camino, Castildelgado e, depois de muito sol chegamos a Belorado.

  


 

 


Em cada cidade visitávamos as igrejas e o centro das vilas.

No albergue ficamos instalados em beliches num sótão. A cada etapa novas experiências.



13º dia - 08/09/2.011 [Quinta]  - 23,8 km no dia. 263,8 km acumulados.
Belorado [Castilla y León] - San Juan de Ortega [Castilla y León]

Apesar de termos enfrentado dias de muito calor e sol escaldante, as manhãs eram frias e sempre saíamos agasalhados.

Depois de um precário café da manhã no albergue, saímos.

A primeira vila que se passa é Tosantos. Fora da vila vimos a Ermita de Nuestra Señora de la Peña, encravada num rochedo. O peregrino que passa distraído pode deixar de ver essa atração porque ela fica fora da rota, à direita de quem caminha, um pouco longe. Não fomos lá porque sabíamos que estaria fechada e teríamos que sair da rota.


No caminho há sempre muitos peregrinos. Nas longas vias se percebe bem os grupos que vão caminhando mais à frente. Tereza Cristina caminhava conosco.

Enfrentamos um trajeto difícil, principalmente nos últimos doze quilômetros. Há subidas e descidas com muitas pedras. Atravessa-se uma região de reflorestamento com pinheiros.


Depois de passar por Villambistia, fizemos uma pausa  para descanso e lanche em Villafranca Montes de Oca.

O albergue de San Juan de Ortega  foi o pior de todo o caminho. Com instalações antigas e descuidadas não dispunha de cozinha ou lavanderia. Os beliches são altos e sem escadas, com um enorme afundamento no centro (em todos os beliches) que me causou uma dor na coluna que perdurou por vários dias. A área para estender roupas era pequena e a Clarice teve que ir à praça para secar nossas roupas.

Comemos no Bar Marcela onde provamos a deliciosa morcilha de Burgos muito bem acompanhada de uma gelada cerveja. Ali não servem Menu do Peregrino, só PF (prato feito) e a quantidade deixa a desejar para quem caminhou um dia inteiro.

Achamos interessante observar o comportamento de Isaac, um jovem japonês que já víramos várias vezes no caminho. Ele normalmente ficava na mesma cidade que nós. Normalmente quando saíamos de um albergue ele ainda permanecia, mas depois de alguns quilômetros caminhando ele passava por nós e só o encontraríamos novamente no próximo albergue. Ele pediu a morcilha de Burgos e uma cerveja. Ao recebê-la passou todo o conteúdo para um copo e ficou algum tempo com a garrafa emborcada esperando que a última gota da garrafa saísse para não desperdiçar nada. A cada gole dado ele, que estava sozinho, balançava afirmativamente a cabeça e com os olhos semicerrados resmungava baixinho como se dissesse "bom, muito bom". Foi a última vez que o vimos.


14º dia - 09/09/2.011 [Sexta]  - 25,7 km no dia. 289,5 km acumulados.
San Juan de Ortega [Castilla y León] - Burgos [Castilla y León]

Saímos mais cedo do que nos outros dias, às 6 horas. As lanternas de cabeça nos guiavam. Com o passar do tempo o dia também acordava vindo se juntar a nós.

Paramos numa cidade mais à frente para fazer o lanche porque em San Juan de Ortega, na hora em que saímos, só havia a opção dos produtos vendidos em máquinas.

A Tereza saiu conosco, mas andou mais rápido e foi se distanciando e não a vimos mais.

Comemos ameixas colhidas no caminho.

Em Burgos entramos por Villafría. A chegada em Burgos é muito cansativa porque a caminhada se faz vários quilômetros em área urbana.

Enquanto caminhávamos em direção ao centro antigo decidimos ficar em um hotel para nos recuperarmos da noite mal dormida em San Juan de Ortega. Ficamos no Hotel Jacobeu, na Calle San Juan, bem próximo da Catedral.

 

Depois e um bom banho saímos para almoçar na Praça Alonso numa mesa na calçada, apreciando o movimento dos habitantes se recolhendo para a siesta.

Depois do almoço visitamos a Catedral de Santa Maria de Burgos, de uma riqueza indescritível e, na qual, com a apresentação da Credencial do Peregrino, paga-se um valor reduzido de entrada, pagamos € 2.50.

O fascínio começa em sua fachada com muitas esculturas e uma profusão de detalhes. Seu altar mor é ladeado de inúmeras capelas, cada uma mais interessante que a outra. É preciso ter tempo para apreciar cada detalhe, cada cor, saliência, sinal do tempo, enfim. A quantidade de obras de arte é maior que muitos museus. Nessa catedral encontra-se o túmulo de El Cid, herói ibérico, senhor da Espanha, um militar que viveu no século onze e lutou bravamente a serviço dos reis cristãos, derrotando os muçulmanos.

Depois passeamos mais um pouco pelo centro, tomamos um sorvete ao lado do Arco de Santa Maria e retornamos ao hotel para descansar.



15º dia - 10/09/2.011 [Sábado]  - 30,9 km no dia. 320,4 km acumulados.
Burgos [Castilla y León] - Hontanas [Castilla y León]

Hoje completava uma quinzena de dias no caminho. O pernoite no hotel foi confortável, mas quebrou o ritmo. Concluímos que o bom mesmo é ficar em albergues.

Saímos ainda escuro e encontramos nas medievais ruas do centro de Burgos os últimos boêmios da noite de sexta. Em nenhum momento nos sentimos ameaçados, apesar de caminharmos por ruas desertas. A recepcionista do hotel, uma brasileira, havia dito que se poderia caminhar pelas ruas de Burgos a qualquer hora da noite sem riscos.

A saída de Burgos, assim como a entrada, se faz por um longo trecho urbano. Quando deixamos as últimas edificações já estava clareando. Ao longe as inúmeras torres das usinas eólicas.

O trajeto se inicia plano em estradas ladeadas por amoreiras silvestres carregadas de frutos. Passamos por Tarjados e Rabé de las Calzadas, quando há uma mudança de ambiente e vamos encontrando subidas e descidas com muito pedregulho e nenhuma sombra. O boné estilo legionário que comprei em Saint-Jean-Pied-de-Port estava cumprindo bem sua função em proteger as orelhas e pescoço do sol rigoroso.

Em Hornillos del Camino quando paramos para um lanche, encontramos no bar os gaúchos de Caxias do Sul; Elias, Neiva e Salete.


Sentar numa sombra, desfazer-se do peso da mochila, tirar as botas, sacar um canivete, descascar uma fruta e saboreá-la seriam atividades que passariam despercebidas se realizadas no dia-a-dia, mas no caminho se reveste de uma aura mágica. Inexplicável.

Apesar de virmos vencendo distâncias maiores, a Clarice ainda não estava totalmente boa da tendinite. Caminhava com dois cajados superando a cada dia as dores que a atormentavam.

O sol aproveitou-se da paisagem árida para nos testar e caprichou no calor. Mas estávamos resolutos e seguimos até Hontanas onde nos hospedamos no Albergue Municipal. A Clarice lavou as roupas e as estendeu na rua, em frente ao albergue.

Ali nos encontramos novamente com Tereza Cristina e colocamos as novidades em dia.

A igreja estava fechada e aguardávamos sua abertura. No meio da tarde uma senhora passou por nós carregando um molhe de enormes chaves, seguindo em direção à igreja. Nós a seguimos e visitamos a construção antiga e simples.

  


16º dia - 11/09/2.011 [Domingo]  - 28,5 km no dia. 348,9 km acumulados.
Hontanas [Castilla y León] - Boadilla del Camino [Castilla y León]

Saímos bem cedo e quando passamos nas ruínas do Convento de San Antón ainda estava muito escuro o que nos impediu de apreciá-lo.


Amanhecia quando passamos por Castrojeriz com seu castelo em ruínas sobre o monte. Na vila o Bar La Taverna tinha uma bandeira do Brasil hasteada na fachada. Entramos e no interior do bar outras bandeiras do Brasil e de diversos estados brasileiros. Cédulas de dinheiro do mundo todo estavam penduradas nas paredes. Tomamos um café, conversamos com o proprietário, ganhamos dois biscoitos e retomamos nossa peregrinação.



Pouco depois dessa vila há uma subida importante e cansativa. No topo do morro há um abrigo para repouso dos peregrinos onde uma placa informava sobre um projeto de arborização do Caminho de Santiago na região de Burgos. Na verdade esse projeto envolve toda a Comunidade Autônoma de Castilla y León.

Descansados iniciamos a íngreme descida, hoje pavimentada. Quando a Clarice fez a peregrinação em 2007 essa descida ainda era feita de pedregulhos e muito perigosa.

O traçado do caminho se projetava até onde as vistas alcançavam.

Em Ítero de la Vega, ao atravessarmos a Ponte Fítero sobre o Rio Pisuerga, deixávamos para trás a Província de Burgos e entrávamos na Província de Palencia. As províncias são as subdivisões das Comunidades Autônomas.


Chegamos, depois a Boadilla del Caminho para pernoitar. Ficamos no Albergue do Dudu que dispõe de um aprazível quintal para o peregrino "largar" o corpo. Depois do almoço ficamos conversando com Elias, Neiva e Salete. Mais tarde demos um passeio rápido na vila que é muito pequena. Destaque para um pelourinho todo trabalhado, datado do século XV, no qual eram punidos aqueles que desobedeciam as leis o que também foi usado pela Inquisição.


17º dia - 12/09/2.011 [Segunda]  - 24,6 km no dia. 373,5 km acumulados.
Boadilla del Camino [Castilla y León] - Carrion de los Condes [Castilla y León]

Pelourinho em Boadilla del Camino
Tivemos dificuldades em encontrar a sinalização do caminho na saída de Boadilla.

Em compensação tivemos um belo amanhecer no caminho. Enquanto a lua se recolhia no horizonte para descansar de seu expediente o sol trazia sua luz para nos mostrar a bela paisagem do local onde estávamos.
Passamos rapidamente por Frómista e a seguir o caminho se faz por sienda existente ao lado de uma carreteira (auto-estrada) onde os carros passam zunindo.

O sol fazia projetar no chão longilíneas sombras de nossos corpos que seguiam à frente como se fossem guias do caminho.

Mais à frente passamos por Población de Campos. Na saída da cidade há dois caminhos. Buscamos informação sobre qual seria o original e por ele seguimos passando por Villovieco. Apesar de ser mais longo o preferimos por fazer parte da rota original. Junto conosco seguiu Gino, um italiano de Roma e com o qual conversamos.


Em Villalcazar de Sirga fizemos uma pausa para lanche com produtos coloniais e descanso e depois mais siendas abarrotadas de pequenos mosquitos que nos atacavam em bandos. Mais alguns quilômetros e chegamos a Carrion de los Condes.

No albergue encontramos as cariocas (que encontráramos em Viana), o italiano e os gaúchos.

A Clarice participou de uma missa onde o padre pediu aos peregrinos que indicassem seu país de origem e deu uma benção especial.


18º dia - 13/09/2.011 [Terça]  - 26 km no dia. 399,5 km acumulados.
Carrion de los Condes [Castilla y León] - Terradillos de los Templarios [Castilla y León]

Depois de um lanche no albergue, feito com suprimentos que compráramos na véspera num supermercado, saímos. Os primeiros quilômetros de caminhada se fazem por estradas pavimentadas e, nestas ocasiões, tem que se dar atenção ao trânsito de veículos. Caminhamos vendo a noite ceder lugar ao dia.

Utilizamos os abrigos construídos para a pausa dos peregrinos para fazer o lanche. Em todos os lugares onde passamos fica muito claro que os administradores públicos levam em consideração os peregrinos quando do planejamento e execução de obras públicas. Na construção de abrigos, na destinação de vias, na elaboração de desvios específicos quando a rota é interrompida por alguma obra, na sinalização, enfim.

Como ocorrera em todos os dias de nossa estada no caminho, ultrapassávamos e eramos ultrapassados por peregrinos, várias vezes os mesmos no mesmo dia. Quando dávamos ao caminhar um ritmo mais acelerado íamos ultrapassando alguns peregrinos. Quando parávamos ou caminhávamos mais devagar éramos ultrapassados, algumas vezes por aqueles que recém tínhamos ultrapassado. Isso era uma constante durante todo o trajeto.

A primeira vila por que passamos foi Calzadilla de la Cueza, depois de 17 km de caminhada. Paramos para um café. Nos bares da Espanha, ao se solicitar café, se não pedir um "café americano" eles servem um expresso extremamente forte e com pouca quantidade (um dedo no fundo da xícara), mal dá um gole. Nesse bar nos atendeu um brasileiro natural de Guarulhos/SP.

Continuamos a caminhada numa estrada que cortava raras plantações de girassóis ou milho e outras com muitos rolos de feno.

Depois de uma rápida passagem por Lédigos e mais alguns quilômetros, chegamos a Terradillos de los Templários onde nos hospedamos no Albergue Jacques de Molay onde dormimos em camas agrupadas muito próximas umas das outras.


19º dia - 14/09/2.011 [Quarta]  - 30,5 km no dia. 430 km acumulados.
Terradillos de los Templarios [Castilla y León] - El Burgo Ranero [Castilla y León]

Acordamos sentindo o vento soprar forte e percebemos que estava frio. Saímos agasalhados, inclusive protegidos pela touca da jaqueta.

O frio nos permitiu andar rápido e assim fomos avançando. Em Moratinos e em San Nicolás del Real Camino passamos com céu ainda escuro.


Pouco depois tomamos uma sienda que margeava a rodovia e em Sahagún paramos em um bar para ajustar as meias e fazer um lanche.

Em Sahagun há uma enorme pedra com uma placa que informa ser ali o centro do Caminho Francês de Santiago de Compostela. Na verdade há várias medições e nenhum consenso sobre a distância exata do Caminho, ficando entre 780 e 830 km. Nesta postagem utilizamos a metragem constante no site www.godesalco.com, que conta com um excelente planejador que permite definir todas as paradas do caminho.

Já estávamos chegando em Bercianos del Real Camino e não dera meio-dia, então decidimos seguir até El Burgo Ranero, 7,6 km mais à frente.

No Albergue Municipal fomos muito bem recebidos pelos hospitaleiros José Maria e Pascual que ofereciam aos peregrinos que chegavam um delicioso copo de limonada refrescante. Ficamos em um quarto com os três gaúchos (Salete, Neiva e Elias), Tereza Cristina e dois canadenses de Quebec (Renan e Marcelo).

Depois do banho fomos almoçar e na mesa ao lado havia outros dois brasileiros, um gaúcho e outro mineiro. Depois chegou um italiano que os brasileiros conheciam do caminho e ficamos ali conversando italianamente, numa mistura de línguas, muitos gestos e algazarra.

Utilizamos a folga da tarde para comprar gêneros para o lanche da noite e do dia seguinte. Pascual tratou dos calos da Clarice.


20º dia - 15/09/2.011 [Quinta]  - 25,1 km no dia. 455,1 km acumulados.
El Burgo Ranero [Castilla y León] - Puente del Villarente [Castilla y León]

Mais um dia caminhando numa sienda à margem da rodovia. Estas siendas estão sendo arborizadas com árvores de castanhas portuguesas que ainda não estão adultas, mas já produzem frutos. Estavam carregadas. Porém a sombra que necessitamos ainda não está disponível.

A caminhada nesta região é meio monótona, porém faz parte do caminho e é preciso vencê-la. Nesta fase somos instados a pensar mais sobre o caminho e suas razões. Em nossas botas e pernas se acumulava a poeira do caminho. Depois uma luz mágica iluminou a paisagem. Era o sol nos visitando novamente, enchendo de vida o caminho.


Em Reliegos as casas construídas enterradas sob os barrancos são bem interessantes.


A Clarice continuava com a perna enfaixada e caminhando com os dois cajados. No início deste dia ela estava sentindo as costas, provavelmente pela mudança de pisada. Este é outro aprendizado do caminho, quando se está sentindo alguma coisa é preciso parar e verificar. Um grão no calcanhar faz com que mudemos a pisada e isto pode gerar uma série de bolhas e as primeiras bolhas vão gerar outros problemas em série.

As castanhas portuguesas são uma constante.

Depois de caminhar alguns quilômetros ela voltou a sentir forte a tendinite. Reduzimos o ritmo e pouco depois fizemos uma pausa para ela refazer o curativo tracionado.

Passamos em Mansilla de las Mulas onde há uma bela peça artística em homenagem aos peregrinos e caminhamos por suas estreitas ruas.

Mais à frente Villamoros de Mansilla, uma pequena vila.

E, então, Puente del Villarente onde decidimos parar para não forçar mais a tendinite.

Chegar numa cidade caminhando, sabendo-se que se está praticamente atravessando um enorme país à pé dá uma sensação de realização muito grande e de difícil descrição da emoção.

Estávamos numa cidade relativamente pequena. Saímos para lanche e uma visita rápida ao centro, depois retornamos ao albergue para jantar e dormir. Ali estavam os cunhados canadenses e o casal de brasileiros de Florianópolis Mário e Gisela Steiner, com os quais tivemos o primeiro contato no café da manhã do dia seguinte.


21º dia - 16/09/2.011 [Sexta]  - 12,2 km no dia. 467,3 km acumulados.
Puente del Villarente [Castilla y León] - Leon [Castilla y León]

Quando acordamos a Clarice sentiu muitas dores na perna e depois de conversarmos sobre o assunto decidimos que apesar de ser um percurso curto,  pararíamos em León para que ela consultasse um médico.


Com os curativos de tracionamento refeitos, seguimos caminhando sem impôr velocidade pelos doze quilômetros até León. O trajeto é plano e bastante urbano visto que Puente del Villarente é uma cidade satélite de León. No trajeto houve um chuvisco e nos limitamos a cobrir as mochilas com suas capas. Depois o tempo limpou.

O Centro de Saúde ficava bem no início do centro urbano e foi fácil localizá-lo.

O atendimento foi bom. Aguardamos a chamada da senha e uma médica atendeu a Clarice, orientou sobre a questão da tendinite recomendando manter o curativo de tracionamento, receitou um anti-inflamatório, disse que ela deveria parar de caminhar por um tempo ou caminhar pouco e a encaminhou para uma enfermeira para fazer um curativo na bolha tratada por Pascual em El Burgo Ranero que havia inflamado. Usamos o seguro schengen da operadora de cartão de crédito sem problemas.

Fomos para o albergue e depois saímos para conhecer a cidade.

Devido ao atraso no hospital, tínhamos que almoçar para não avançarmos no horário da siesta porque senão só teríamos a oportunidade de comer bem tarde.

Visitando a Plaza San Marcelo, onde fica a Casa Botines de Gaudi, vimos o Bar El Capricho e decidimos almoçar ali. Enquanto procurávamos uma mesa a atendente ofereceu para irmos ao salão que fica no andar de cima e para nossa surpresa encontramos um ambiente climatizado, bem decorado, mesas com toalhas e guardanapos de pano e dois garçons nos dando atenção. Pensamos que havíamos entrado numa furada e que pagaríamos caro pelo almoço. Pedi vinho e a Clarice água por causa do anti-inflamatório. Para ela trouxeram uma garrafa de água mineral de 1,5 litros e para mim uma garrafa do vinho Señorío de Mogrovejo, que não era um vinho jovem, muito bom. Meu primeiro prato foi a melhor sopa de frutos do mar que comi em minha vida e para a Clarice uma salada de atum muito bem servida. Nosso segundo prato foi um bacalhau ao molho com batata e, para sobremesa torta de maçã para a Clarice e sorvete para mim. Para nossa surpresa cobraram € 11 pelo menu do peregrino.

Bar El Capricho

Fomos visitar a cidade. No centro sua majestosa Catedral onde voltamos a encontrar as cariocas. Com sua construção iniciada no ano de 1205, tem 125 janelas, algumas com 33 metros de altura. Possui três imensas janelas em forma de rosáceas. Somando a área de todos os vitrais, passa de 1600 m².

  

Quando saímos da igreja estava chovendo um pouco e nos deu belas cenas do calçadão espelhando as pessoas com suas coloridas sombrinhas.



22º dia - 17/09/2.011 [Sábado]  - 22,5 km no dia. 489,8 km acumulados.
Leon [Castilla y León] - Villar de Mazzarife [Castilla y León]

Depois de uma noite com o sono prejudicado pelos barulhos de um francês que chegara tarde e fizera muito barulho, acordamos cedo, dividimos um lanchinho de máquina (sanduíche e suco com leite) e saímos.

Usamos a iluminação da cidade para caminhar. Depois de tantos dias caminhando com segurança era difícil não se questionar do porquê não ser possível nem pensar em fazer uma experiência assim no Brasil. Em nenhum momento tivemos que mudar de lado na estrada ou desviar de algum ponto mais ermo do caminho por insegurança.


Por volta das nove horas passamos em Virgen del Camino onde fizemos o lanche da manhã e visitamos a igreja.


Ali havia uma variante do caminho e, depois de nos informarmos com um senhor, seguimos por aquele que ele indicou como sendo o original, apesar de ser mais longo.

Seguimos por uma estrada de terra e depois por uma rodovia asfaltada. Após uma rápida passada por Chozas de Abajo, chegamos a Villar de Mazzarife, uma pequena vila onde nos instalamos no Albergue Tio Pepe. Era sábado, a vila era pequena e tudo estava muito calmo.


Tivemos um ótimo almoço, caminhamos pela vila aonde vimos ninhos de cegonhas encimados na torre da igreja, compramos gêneros para os lanches e descansamos.



23º dia - 18/09/2.011 [Domingo]  - 30,1 km no dia. 519,9 km acumulados.
Villar de Mazzarife [Castilla y León] - Astorga [Castilla y León]

Madrugada fria. Saímos agasalhados sob as luzes de nossas lanternas.

Normalmente o dia começava a clarear por volta das oito horas. Nesta hora já estávamos em Villavante.

Caminhávamos bem e às nove horas chegamos a Hospital de Órbigo com sua enorme ponte de pedras. Fizemos um lanche e seguimos, agora por uma via que margeava a N120, uma importante rodovia nacional.


Os sinos da igreja martelavam 13 horas quando chegamos a Astorga.

Instalamo-nos no albergue das freiras e depois do banho saímos para almoçar na praça. Por ser domingo serviam o menu fin de semana, um pouco mais elaborado do que o menu do peregrino e um pouco mais caro também ( 15).


O sino da igreja era tocado por dois bonecos que seguravam marretas. Visitamos externamente o Palacio de Gaudi por estar fechado. Astorga tem muitas confeitarias onde compramos chocolate.


Ligamos para os familiares e por estar frio e ventando muito retornamos ao albergue.


24º dia - 19/09/2.011 [Segunda]  - 25,8 km no dia. 545,70 km acumulados.
Astorga [Castilla y León] - Foncebadón [Castilla y León]

Com o frio saímos agasalhados na madrugada, passamos em uma máquina e compramos relleña e suco, comemos e seguimos.



Passamos por Murias de Rechivaldo, pela bela Santa Catalina de Somoza, El Ganso onde há cercas de arame com cruzes de graveto feitas pelos peregrinos. Então vem Rabanal del Camino onde visitamos a igreja.

Dali foram mais seis quilômetros de subidas até Foncebadón por uma trilha com muitas pedras mas muito agradável apesar do sol castigante.

Ficamos no albergue Cruz de Ferro, inaugurado em maio daquele ano. O proprietário do albergue, Sr. Ângelo é um dos raríssimos moradores originais da cidade e era o proprietário dos cães que algumas vezes atacavam os peregrinos e que são citados no livro Diário de um Mago de Paulo Coelho. A esposa de Ângelo é uma equatoriana muito atenciosa.

Conosco estavam várias pessoas que conhecemos no caminho. Um casal canadense, um casal francês (Jean Michel e Helena) e um casal de brasileiros de Florianópolis (Mário e Gisela Steindel).


25º dia - 20/09/2.011 [Terça]  - 27,2 km no dia. 572,9 km acumulados.
Foncebadón [Castilla y León] - Ponferrada [Castilla y León]

Fizemos o desaiuno (lanche da manhã) no albergue porque queríamos sair mais tarde para passar na Cruz de Ferro com dia claro e a mesma fica a apenas dois quilômetros de Foncebadón.

A Cruz de Ferro é um dos mais simples marcos do caminho, porém de um valor emblemático enorme. Trata-se de uma pequena cruz de ferro colocada sobre um enorme mastro de madeira que está fincado no alto do monte Irago. Sob a cruz uma montanha de pedregulhos trazidos pelos peregrinos de suas casas e que são jogadas ali para, segundo a tradição, pedir proteção. Há ali pedras de todo o mundo.

Havíamos trazido pedras de São José, no Brasil e carregado até ali para depositá-las ao pé da cruz juntamente com fitinhas verde-e-amarelo.

A caminhada até a Cruz de Ferro é por subidas com muitas pedras. Ali deixamos as pedras e as fitas, fizemos nossas orações, fotos e seguimos.


 

Depois de mais 2,4 km passamos pelas ruínas de Manjarín e seguimos por mais 7,5 km em região de montanhas até chegar à bela e aconchegante El Acebo onde fizemos uma pausa para lanche.

 


Seguimos no ritmo de subir e descer até Riego de Ambrós, outra bela vila, toda em pedras e ali fizemos uma pausa na capela. A partir daí começa uma trilha de descida com muitas pedras por 6,8 km até Molinaseca, uma cidade fantástica, com uma bela ponte.


Já na entrada da cidade visitamos a igreja e acendemos vela e fizemos uma oração. Naquele dia completava um mês do falecimento de D. Anna, mãe da Clarice.

Próximo a cidade de Campo ganhamos cachos de uvas brancas de colhedores que estavam na estrada. Era o dia de início da colheita.


Chegando a Ponferrada nos instalamos no enorme albergue municipal que tem capacidade para 210 pessoas. Ficamos num salão no subsolo num ambiente com 22 beliches.


Saímos para comer algo, comprar gêneros para o lanche do dia seguinte e conhecer a cidade que possui muitas atrações. Visitamos o Castelo dos Templários, edificação magnífica erguida para abrigar os templários e auxiliá-los na defesa dos peregrinos quando em trânsito naquela região.




Muitas pessoas iniciam o caminho em Astorga ou Ponferrada e, na sua maioria jovens.


26º dia - 21/09/2.011 [Quarta]  - 27,9 km no dia. 600,8 km acumulados.
Ponferrada [Castilla y León] - Pereje [Castilla y León]

Apesar de estarmos num ambiente com muitas pessoas dormimos bem. Como sempre as madrugadas eram frias e saíamos agasalhados depois de fazer um lanche no albergue. A lua por testemunha de nossa peregrinação.

A saída da cidade é cansativa porque se caminha muito em área urbana.


Aos poucos íamos avançando por Columbrianos, Fuentes Nuevas, Camponayara e Cacabelos onde paramos para lanche. Mais à frente passamos por Pieros e depois de um extenuante trecho Villafranca del Bierzo onde paramos para almoçar e, finalmente, Pereje, onde nos instalamos num albergue municipal novo, com camas individuais.



Pereje é uma pequena vila e tem um único Bar/Restaurante, onde no meio da tarde fomos para comprar bocadillos para o dia seguinte, mas o proprietário disse que bocadillo só poderia ser vendido a partir das 19 horas. Aproveitamos para tomar um café (Clarice) e uma cerveja (eu). Mais tarde retornamos para comprar o bocadillo e tomar uma sopa antes de dormir. Tivemos que aguardar numa fila de peregrinos a abertura do bar que se daria às 19 horas, quando acabasse a siesta.


27º dia - 22/09/2.011 [Quinta]  - 23,1 km no dia. 623,9 km acumulados.
Pereje [Castilla y León] - El Cebreiro [Galícia]

A noite no albergue foi boa, mas a Clarice passou frio porque uma canadense deixou a janela entreaberta e ventava sobre ela.

Saímos cedo e quando chegamos na carreteira tivemos dúvidas sobre o caminho correto. Rodrigo, um mineiro que ficara no albergue nos alcançou e seguimos com ele até Trabadelo. É um trecho que se caminha por uma sienda pavimentada ao lado da carreteira.

O dia começou a clarear quando chegamos a Vega de Valcarce onde paramos numa padaria para fazer um lanche. O termômetro no lado externo da padaria marcava 8º C.

Na saída paisagens de cinema. Encontramos um azulejo com uma mensagem em português assinada por Giba. Pensamos que poderia ser o nosso amigo que estava para vir fazer o caminho.




Mais à frente outra curiosidade. Pregado numa árvore os proclamas do falecimento de um senhor com 87 anos. Colocar proclamas no tronco das árvores ainda é comum na região.




Ao meio-dia deixávamos a Comunidade Autônoma de Castilla y León e entramos na Galícia.


Caminhamos por rodovias e estradas de chão com muitas pedras e subidas íngremes. A Clarice lutava com suas dores para vencer o desafio. às 12h38m, chegamos, finalmente no Cebreiro, cidade tida como a mais mística do caminho e, segundo algumas lendas, portadora do santo graal.



Ficamos no singelo mas agradável Hostal Mesón Antón para descansar mais.


Estávamos no restaurante e recebemos com alegria a companhia de Mário e Gisela que se sentaram conosco. Depois do almoço a sobremesa de queijo do Cebreiro com mel finalizou com chave de ouro a refeição.

No Cebreiro encontramos também Jean Michel e Helena, os franceses.


28º dia - 23/09/2.011 [Sexta]  - 30,8 km no dia. 654,7 km acumulados.
El Cebreiro [Galícia] - Samos [Galícia]

Acordamos e fizemos um lanche no quarto do hotel (bocadillo de queijo e suco de abacaxi) e saímos conforme nos orientara o proprietário na véspera; abrimos a porta, colocamos a chave sobre o balcão e batemos a porta ao sair para travá-la.

Saímos com as lanternas ligadas no escuro da madrugada fria. Um pequeno gato nos seguiu pela trilha até o Alto de São Roque onde paramos para tirar fotos. Acreditamos que ele tenha seguido outro peregrino.

Seguíamos caminhando pela bela região de montanhas enquanto o dia clareava e o sol lançava sua luz dourada na paisagem.


Marcando a característica da Galícia, dividimos a trilha com alguns bois e no Alto do Poio paramos para fazer um lanche. A paisagem é aconchegante.


Quando passamos por Triacastela passava pouco de meio-dia. Visitamos a igreja, almoçamos e seguimos caminhando.

Nosso destino era Samos, cidade pela qual a Clarice não havia passado em 2.007. Na saída de Triacastela segue-se por uma rodovia (carreteira) num trajeto chato e mal sinalizado, mas depois de alguns quilômetros entra-se num caminho dentro da floresta que é muito agradável e é quase todo feito acompanhando um córrego.



Neste trajeto encontramos um padre polonês que caminhava de batina, com a mochila nas costas e acompanhado de um grupo de jovens. O padre caminhava muito rápido.

Ficamos hospedados no albergue do Mosteiro e participamos da missa.





29º dia - 24/09/2.011 [Sábado]  - 37,3 km no dia. 692 km acumulados.
Samos[Galícia] - Portomarin [Galícia]

O trajeto padrão para este dia  seria de Triacastela a Sarria, com 21,5 km, mas como avançáramos no dia anterior pela variante até Samos, estava faltando somente 12 km para Sarria. Então, decidimos seguir caminhando.

Considerando que os povoados depois de Sarria eram muito pequenos, fomos tomando a decisão, a cada um deles, de continuar caminhando.



A caminhada se fazia numa floresta, o que tornava a peregrinação agradável.



Na Galícia encontramos muitos hórreos gallegos, construções de diversos formatos e materiais, utilizadas para guardar e conservar alimentos, protegendo-os dos animais.

Mais perto de Portomarin já era área aberta e pegamos bastante sol. Chegamos às 18 horas, com quase 40 quilômetros de caminhada, mas ainda tivemos que enfrentar a extensa escadaria para chegar ao centro da cidade. O longo trajeto do dia anterior também contribuiu para que sentíssemos o peso da caminhada.


Com o corpo reclamando de cansaço resolvemos ficar em um hotel.

Visitamos a inusitada igreja que foi mudada de local. A cidade de Portomarin ficava numa área mais baixa que foi inundade por uma represa em meados do século XX. Para preservar a igreja, todas as suas pedras foram numeradas, transportadas para o local mais alto onde se ergue a nova cidade e remontada, pedra por pedra, na mesma posição da edificação original. Essa numeração ainda é visível nas pedras.

A Igreja que foi transferida de local
Parede onde se percebe pedras numeradas.
Numeração nas pedras para remontar Igreja.
Portomarin é uma cidade interessante, muito bela.

Saímos para jantar porque o almoço havia sido uma refeição rápida em Sarria e havíamos gasto muita energia.

Ali reencontramos os gaúchos Elias, Neiva e Salete que não víamos desde o dia 15 em El Burgo Ranero.


30º dia - 25/09/2.011 [Domingo]  - 24,8 km no dia. 716,8 km acumulados.
Portomarín [Galícia] - Palas de Rei [Galícia]

Considerando que o trajeto deste dia seria mais curto (24,8 km), decidimos sair mais tarde. Tomamos o desaiuno no hotel e saímos às oito horas.

No guia constava que o trecho deste dia era pesado. Já na saída da cidade começamos com longas subidas que pareciam não terminar mais.

O caminho estava bem lotado de peregrinos, bem acima do normal, inclusive a cavalo. Afinal era domingo e os espanhóis aproveitam os finais de semana para caminhar.


Começamos a caminhar por trilhas na mata e depois pelo acostamento de carreteiras. Voltamos a encontrar o padre polonês.



Chegamos a Palas de Rei por volta das 14 horas e nos hospedamos no mesmo albergue e no mesmo quarto que a Clarice havia ficado em 2.007.


31º dia - 26/09/2.011 [Segunda]  - 28,9 km no dia. 745,7 km acumulados.
Palas de Rei [Galícia] - Arzúa [Galícia]

Saímos para o caminho e depois de cinco quilômetros passamos por Pontecampaña, depois Casanova, Fuleros e Melide, cidade famosa por pratos preparados a base de pulpo (polvo). Infelizmente quando passamos ali ainda era muito cedo para almoçar e, assim, deixamos de experimentar esse famoso prato local.

Em Fuleros há uma pequena igreja com uma imagem de Jesus Cristo crucificado na qual ele está com um braço descido da cruz. Porém não foi possível fazer uma visita porque o responsável pela abertura do templo estava em férias.



Orreo



Caminhamos mais seis quilômetros e passamos por Boente e depois por Ribadiso de Baixo, onde voltamos a encontrar Elias, Neiva e Salete, com os quais seguimos caminhando.

Este dia foi cansativo porque eu havia feito um calo entre os dedos nos dias que caminhamos mais. Por causa dele mudei a pisada e comecei a sentir outras partes do pé.

Por fim, nosso destino do dia, a cidade de Arzúa, onde nos hospedamos no albergue Ultréia na entrada da cidade.

Utilizei o computador do albergue para acessar minha conta de e-mails e havia um e-mail da Marina (nossa filha) indicando um link de uma página que ela criara, relativa aos preparativos de seu casamento que ocorreria dali a onze meses. Estava sozinho, abri a página e conforme ia lendo as mensagens, vendo as imagens e ouvindo a música de fundo fui às lágrimas de tanta emoção. Subi correndo e chamei a Clarice e quando ela viu ficamos os dois chorando emocionados.

Saímos para almoçar com Elias, Neiva e Salete no restaurante de um português muito atencioso.

Quando estávamos voltando para o albergue encontramos Mário e Gisela que estavam chegando na cidade naquele momento.

Jantamos todos juntos no restaurante do albergue.


32º dia - 27/09/2.011 [Terça]  - 18,5 km no dia. 764,2 km acumulados.
Arzúa [Galícia] - Pedrouzo [Galícia]

A terça feira acordou colorida com um céu de cores fortes. Fantástica.






Caminhávamos com a família de Caxias do Sul.

Novamente senti dores no calo e acabei fazendo outro. Por sorte o percurso era curto.

Ficamos todos juntos no hotel e saíamos para as refeições juntos. Conseguimos inclusive nos divertir com o mau atendimento de um garçom despreparado. Rimos muito.


33º dia - 28/09/2.011 [Quarta]  - 20,1 km no dia. 784,3 km no total.
Pedrouzo [Galícia] - Santiago de Compostela [Galícia]

Este era para ser o penúltimo dia de peregrinação. Nosso objetivo inicial era seguir até o Monte do Gozo que fica a cerca de cinco quilômetros de Santiago e que possui o maior albergue do caminho, pernoitar lá e sair no dia seguinte, calmamente para chegar tranquilos a Santiago.



Mas o dia começou com uma garoa fraca e durante a caminhada foi variando de intensidade. Começamos a acelerar o passo e fomos ganhando terreno.


Quando estávamos nos aproximando do Monte do Gozo, por volta das 10h30m, sentimos que poderíamos chegar a Santiago antes do início da missa do peregrino e nos animamos. Visitamos o marco erigido pela visita do Papa João Paulo II e seguimos


Estávamos eufóricos. A peregrinação estava terminando. Cantávamos, dávamos gritos de incentivo e fomos seguindo.

Depois de entrar no perímetro urbano de Santiago a Catedral não chegava mais a ansiedade atrapalhava nosso raciocínio. Muitos peregrinos chegavam conosco, todos apressados com a ansiedade.


Percorrêramos quase 800 quilômetros. Déramos mais de 1,1 milhão de passos. Na cabeça de cada um de nós os neurônios estavam agitados e remetiam para o nosso consciente um turbilhão de informações que não conseguíamos processar. Queríamos chegar.

Junto conosco outros peregrinos também em estado de euforia seguiam rápido em direção a Catedral.

Quando chegamos na Praza do Obradoiro, no largo da Catedral de Santiago nos abraçamos emocionados e nos beijamos. As lágrimas saltaram, um arrepio eriçava nossa pele e um nó se fez em nosso peito.



Entramos na Catedral para participar da missa e para nossa surpresa houve a cerimônia do botafumeiro, um enorme incensário que preso ao teto da catedral é movimentado por seis pessoas e balança entre os dois extremos das naves laterais inebriando o ambiente com a fumaça e o odor do incenso, tornando tudo mágico.


Depois da missa fomos na Oficina de Acolhida onde apresentamos nossas credencias carimbadas por todos os locais onde pernoitamos e obtivemos nossas Compostelanas (Certificados emitidos em latim) atestando que cumprimos o trajeto à pé. Ali combinamos com Elias, Neiva, Salete, Mário e Gisela de nos encontrarmos mais tarde para fazermos a refeição juntos.


Compostelana Clarice
Compostelana Maur

Seguimos, então, para o hotel, cuja reserva havíamos efetuado alguns dias antes, para nos instalarmos e tomarmos banho.

Encontramo-nos todos em frente a Catedral e seguimos pela Rua do Franco, a principal rua de fluxo de pedestres, cheia de bares e restaurantes, alguns com mesas na calçada. Um dos primeiros restaurantes que passamos estava fechado e com um curioso papel na porta onde dizia: "Cerramos los miercoles por descanso de los clientes.  Desculpen las molestias. Gracias." (Fechamos às quartas-feiras para descanso dos clientes. Desculpem o desconforto. Obrigado.). Para eles o cliente descansa cozinhando em casa.


Credencial Clarice com carimbos por locais de pernoite


Escolhemos outro restaurante e nos sentamos para almoçar e brindar o encerramento do caminho. Aproveitamos para experimentar a vieira, um dos símbolos do Caminho de Santiago e hoje em dia pode ser vista pendurada em muitas mochilas de peregrinos. A vieira transformou-se em símbolo do caminho séculos atrás, depois que os peregrinos que cumpriam o trajeto e chegavam à Catedral, prosseguiam caminhando por mais quatro dias e iam até a cidade de Finisterra (fim das terras) - assim denominada antes do descobrimento da América - onde queimavam as vestes usadas na peregrinação e recolhiam conchas de vieira e levavam para casa, provando o cumprimento da peregrinação.




34º dia - 29/09/2.011 [Quinta]  
Santiago de Compostela [Galícia]

Um dia para curtir a cidade.

Da janela do quarto do hotel podíamos ver as torres da Catedral irrompendo no céu.


Saímos depois do café da manhã para conhecer a cidade. No horário de maior fluxo de chegada de peregrinos fomos para a frente da Catedral observar a chegada de outros peregrinos, ver suas expressões, suas reações. É muito interessante porque no momento em que chegamos estávamos tão envolvidos nos nossos sentimentos que não conseguíamos perceber tão claramente a magia desse momento.


Adicionar legenda
Aproveitamos também para comprar algumas peças de roupa para usar na viagem que faríamos por Portugal e Espanha nos próximos 23 dias. Poucas peças, afinal viajaríamos de mochila.

Retornamos à Catedral para participar novamente da missa do peregrino e lá encontramos o casal de franceses, Jean Michel e Helena, bem como os cunhados canadenses, Renan e Marcelo, além de nosso amigo Gilberto Cardoso (Giba) de quem pensáramos ser os azulejos com mensagens vistos no caminho, mas ele disse que não fora ele que os colocara.

Imagem de Santiago (Tiago Maior)
O túmulo do Apóstolo Tiago Maior
O reencontro o casal francês e os cunhados canadenses
À tarde nos encontramos com os gaúchos e ficamos passeando com eles. Almoçamos frutos do mar. A cozinha da Galícia é rica em frutos do mar.

Já noite ainda caminhávamos e acompanhamos algumas apresentações culturais e musicais nas ruas de Santiago.


35º dia - 30/09/2.011 [Sexta] 
Santiago de Compostela [Galícia]

Mais um dia curtindo Santiago. A quantidade de turistas na cidade é enorme. Além dos peregrinos que chegam às centenas, muitos ônibus descarregam hordas de turistas que caminham aos grupos seguindo seus guias.

Fizemos compras de lembrancinhas e, juntamente com Elias, Neiva e Salete passeamos no trenzinho para ver os pontos de interesse mais afastados.




A Clarice encontrou o Guido Becker que havia terminado a caminhada com um grupo de pessoas, dentre eles o Estanislau e a Elizete, amigos da ACACSC.

Reunimos numa caixa especial da empresa de correios da Espanha, tudo que não iríamos precisar na viagem que faríamos nos próximos dias (botas, cajados, roupas usadas na peregrinação, panfletos, etc) e despachamos para nossa casa.

Experimentei o ótimo pulpo galego (polvo grelhado) e à noite fomos à Praza do Obradoiro, onde tudo acontece e sempre voltávamos. Ali nos sentamos e nos deitamos no chão apreciando a fachada da Catedral iluminada com hotofotes de luz amarelada.




36º dia - 01/10/2.011 [Sábado] 
Santiago de Compostela [Galícia]

Logo no início da manhã fomos até o hotel onde estavam hospedados Elias, Neiva e Salete e lá recebemos o carro que havíamos alugado em conjunto para irmos até Finisterra. Como eu havia levado minha carteira de habilitação internacional, fui dirigindo.


A viagem foi tranquila, numa estrada com pouco movimento e belas paisagens.

Era um belo dia de sol e decidimos ir primeiro a Muxia, cidade litorânea mais ao norte de Finisterra, onde conta a lenda teria estado São Tiago no tempo em que fazia pregações na Galícia e, olhando para o mar e orando para que o povo não o recebesse com hostilidade, teria avistado a chegada da Virgem em uma barca de pedra. No local foi construída uma capela e a pedra do quadro, que simboliza a vela do barco lá se encontra. Fomos tomar um café no hostal e restaurante La Cruz que fica bem próximo da igreja e em frente ao mar, aonde fomos atendidos pela simpática Sra. Manuela que nos contou muitas histórias sobre o local.








De Muxia descemos a Finisterra onde visitamos o cabo aonde muitos peregrinos vão para queimarem suas vestes usadas na peregrinação. Lá encontramos o grupo do Guido Becker e almoçamos no mesmo restaurante.


Aproveitando que ainda tínhamos tempo, fomos até a bela e aconchegante cidade de Muros, um pouco mais ao sul e, assim como as outras duas, de frente para o Oceano Atlântico.



Depois que retornamos a Santiago de Compostela, caminhamos pelo centro e visitamos uma feira medieval onde todas as barracas criam um ambiente como existia na idade média. Os artesãos se vestem com as características túnicas da época e fazem apresentações, vendem artesanato e comidas preparadas ali ao ar livre em grandes tachos ou enormes braseiros. Por entre o povo desfilam grupos de mouros acompanhados por saltimbancos malabaristas, tocadores de música, cuspidores de fogo, dançarinas com cobras nos ombros e acompanhados por representações de animais gigantes operados por pessoas. Desta forma nos vimos transportados no tempo para uma época da qual só havíamos visto imagens nos filmes. Mas ali a gente se sentia vivendo aquela época como aldeões.


Durante a noite as ruas de Santiago se enchem de pessoas nos bares e restaurantes. a cidade ferve.


37º dia - 02/10/2.011 [Domingo] 
Santiago de Compostela [Galícia]

Nosso último dia em Santiago.

Arrumamos as mochilas, descemos para o café com elas e as deixamos na portaria para pegar na hora de ir para a estação ferroviária onde pegaríamos o trem para a cidade do Porto, em Portugal, nosso primeiro destino após o caminho de Santiago.

Depois de circular pela cidade fomos para a Catedral para participar da missa, encerrando nossa jornada de peregrinação.


Para nossa surpresa lá encontramos nossos amigos Leal, Jota e Ulisses, que também estavam encerrando sua peregrinação, iniciada em Somport.



Aproveitamos nossa estada na Europa para visitar algumas cidades, cujos relatos estarão em postagens específicas. A primeira parada foi na cidade do Porto, em Portugal (veja postagem).



15 comentários:

Miguel Avila disse...

Caros Mauricio/Clarice, adorei o relato. Simples, de fácil compreensão, prático e muito bem ilustrado. Com a devida vênia, tomarei esta experiência de vocês como modelo de viagem. Espero que sejam justos no cobrança dos direitos autorais...rsrsr.
Abraços
Miguel Avila

Miguel Avila. disse...

Caros amigos Mauricio / Clarice, finalmente chegou o dia, parece que foi ontem, quando em Janeiro conversávamos sobre “O Caminho de Compostela”. Neste momento, do fundo do meu coração, faço o registro do meu absoluto agradecimento a vocês dois pelo desprendimento, pela dedicação, pela paciência, pelo carinho, pelos ensinamentos tanto teóricos como práticos que vocês me proporcionaram. Foi uma verdadeira transferência de conhecimento. A partir do meu primeiro passo, estarei com vocês em meus pensamentos, objetivando lembrar-me de tudo que me passaram, sabendo que desta forma posso garantir percorrer o trajeto com muito mais segurança e tranquilidade.
Fiquem com Deus.
Um grande e fraterno abraço.
Miguel Avila

Mauricio e Clarice disse...

Caro Miguel,

O êxito em sua preparação deve-se a sua motivação, interesse e disciplina.
Você buscou incansavelmente respostas às suas dúvidas e sempre esteve aberto para assimilar os novos conhecimentos.
Estamos certos de que fará uma peregrinação maravilhosa.
Buen camino e um abraço peregrino.

Maurício e Clarice

Auro Lucio Silva disse...

Excelente relato! Li todas as etapas com prazer. Bem escrito e ilustrado, um verdadeiro "guia ao vivo" do Caminho. Fiz o Caminho algumas vezes, mas apenas em 2000 iniciei no mes de setembro, como vocês. Foi gostoso ver descrições das paisagens e frutas características dessa época. E lembrar os terríveis triliches de Viana...
Obrigado pela postagem. Apesar de estar desanimado com as mudanças que acontecem no Caminho ( e na vida, né?), estou me propondo a uma caminhada ano que vem. Seu diário me animou mais um pouco. Abraços.
Auro Lúcio Silva - São Francisco Xavier/SP

Mauricio e Clarice disse...

Senhor Auro.

Agradecemos suas elogiosas palavras sobre esta nossa postagem.

O Caminho de Santiago é realmente uma experiência única e sempre que revivemos as lembranças, brota o desejo de refazê-lo.

Enquanto redigia e montava essa postagem revivi cada momento por intermédio das anotações e fotos (incluindo as não publicadas), cada etapa foi sendo vencida novamente.

Um sentimento indescritível se apossa da gente nesses momentos.

Anônimo disse...

Olá Maurício e Clarice. Lendo o diário, tão bem detalhado, pude rebobinar o meu caminho, que percorri no mesmo período que vocês. Conheci também a Terez(s)a Cristina de Jundiaí, o casal de SC - que vira pela primeira vez em Ferreiros -, e o trio do RS. Acho que sei quem são as canadenses. Havia um francês, de cabelos grisalhos e compridos, sempre amarrados, de quem não soube o nome, mas ele estava sempre preocupado comigo em razão de ter desenvolvido fascite plantar nos dois pés e que por isso eu caminhava com grande dificuldade e dor. Considerando o relato, identifiquei que em alguns dias pernoitamos no(a)s mesmo(a)s pueblos ou cidades, por exemplo Palas de Rey - possivelmente em locais diferentes -, e que chegamos em Santiago no mesmo dia, onde hospedei-me no Seminário Menor por vota do meio-dia e assisti missa à tarde. No dia 29.09, desci a Finisterra em ônibus e voltei pela tarde. Pela noite fui jantar no Bar do Manolo onde encontrei a Terez(s)a Cristina. No dia seguinte segui em ônibus à Lisboa. O casal de SC encontrei no dia 28 à tarde na Oficina de Peregrinos. Brasileiros gostam mesmo de estar por aquelas paragens. Obrigada por partilhar suas experiências. Bom carnaval a vocês. Maria Sueli, São José dos Pinhais/PR.

Mauricio e Clarice disse...

Olá Maria Sueli.
Agradecemos seu comentário.
Aquela peregrinação foi muito intensa. Uma experiência única.
Depois daquela, voltamos à Europa para fazer uma parte da Via Podiense, onde andamos de Le Puy até Moissac, na França (cerca de 400 km andando pelos Médios Pirineus) e fizemos em outra oportunidade o Caminho Português de Santiago. (Um dia ainda relatarei essas experiências aqui no blog)
Bom carnaval para você também.

Imea Instituto Minerva disse...

Maurício e Clarice

Boa tarde. Encontrei seu blog "por acaso" (será que o acaso realmente existe?). Estarei embarcando p a europa em 15/09 e estarei iniciando o caminho provavelmente no dia 21. Não terei como fazer todo o percurso e assim, com a ajuda de seus relatos iniciarei em Roncesvalles ate Estella, de la até Burgos de ônibus e de Burgos até León de trem. A partir de León pegarei emprestado seu roteiro para chegar a Santiago de Compostela.
O relato de vocês é lindo e as dicas muito boas.
Minha pedra para ser colocada na Cruz de Ferro já esta comigo...rsrsrs....pronta para embarcar.
Obrigada por terem colocado suas experiências acessíveis a todos nós.

Claudia Gomes
Aracaju/SE

Feliz Páscoa.

Mauricio e Clarice disse...

Olá Claudia.

Que bom que você gostou. É bom saber que nosso blog se torna útil para alguém.
Desejamos a você uma boa peregrinação. O Caminho é mágico e lhe cativará, temos certeza.
Que São Tiago lhe acompanhe em todo o percurso.
Quando chegar a Santiago de Compostela, na Catedral, dê um abraço em Santiago por nós.
Buen camino!

esiopoeta@bol.com.br disse...

Olá Maurício, olá Clarice... muito prazer. Faço romaria desde meus 15 anos, Piracicaba a Pirapora. São apenas 120km... O desejo de Compostelar...(criei um verbo novo) era antigo. Em 2014 sem preparo físico algum embarquei no caminho. Que cansaço" De Saint Jean a Roscenvalles foi rerrivel. Depois amenizou e pude seguir aos trancos e barrancos até Burgos, onde uma terrivel tendinite me privou a caminhada. Fui parar no hospital em leon e decepcionado segui de Sarria até Compsotela. Ano passado treinei durante 3 meses, cindo a seis vezes por semana, de 15 a 40km e melhor preparado fiz novamente o caminho, onde durante 30 dias peregrinei feliz passo a passo essa jornada.
Um conselho a futuros peregrinos: treinar, treinar e treinar muito. Assim treinado nada de tendinites, câimbras, dores na panturrilha, bolhas nos pés. Flutuei feliz todo o caminho... Se alguem se interessar por algumas dicas, só me escrever. esiopoeta@bol.com.br Moro em Piracicaba, interior de SP. Que o Grande Arquiteto do Universo jorre suas luzes sobre todos nós. Peregrinos ou nao. TFA Esiopoeta

Mauricio e Clarice disse...

Olá Esio

Realmente a preparação é fundamental. Também é interessante se desligar do mundo e se envolver totalmente na peregrinação.
Abraço peregrino.

Marta Bacury disse...

Excelente relato, a riqueza de detalhes nos transporta para o Caminho. Parabéns !!!!
Vou embarcar no próximo dia 01/05/2016.
Um grande abraço carinhoso

Mauricio e Clarice disse...

Olá Marta
Agradecemos o comentário e ficamos felizes de poder ter auxiliado em algo.
Desejamos a você uma boa peregrinação.
Buen camino!

TOMMASI ágatha disse...

Oi!!! Eu sou Ágatha e meu email é agathaltoliveira@gmail.com

gosto muito do seu blog. queria saber quantos litros vc levou na sua mochila no caminho de santiago! estou pensando em fazer um trecho agora em julho, mas não tenho tanta experiência como você nas caminhadas.

um ótimo dia!!!!!!

Beijos

Mauricio e Clarice disse...

Oi Ágatha,

Bom receber seu comentário.

É difícil opinar na mochila dos outros, afinal cada um tem suas necessidades e costumes. Além disso, a época também interfere no conteúdo da mochila.

Minha mochila é de 42 litros e foi quase cheia.

Levei os seguintes itens:
Mochila - 1
Meias - 3
Cueca -3
Botas - 1
Papete - 1
Calça bermuda - 2
Camisetas - 3 (duas manga longa e uma manga curta)
Jaqueta impermeável Goretex - 1
Fleece - 1
Calça segunda pele - 1
Camiseta segunda pele - 1
Sobrecalça chuva - 1
Boné - 2
Saco dormir - 1
Necessaire - 1
Toalha banho especial - 1
Câmera fotográfica - 1
Óculos sol - 1
Protetor solar - 1
Repelente - 1
Álcool gel - 1
Canivete - 1
Mini lanterna - 1
Cajado - 1
Corda nylon - 1
Toalhas umedecidas, pacote - 1
Squeeze térmico - 1
Porta Squeeze - 1
Apito - 1
gorro - 1
luvas - 1

Com isso, minha mochila pesava 9,3 kg.
Homens e mulheres tem necessidades diferentes. A mochila da Clarice tinha basicamente as mesmas coisas, diferenciando naqueles itens específicos de mulher (calcinha, soutien, etc.), mais os remédios, primeiros socorros e pregadores para roupas e pesou 8,4 kg.

Dali, tiraria, com certeza, a sobrecalça de chuva. Uma capa já é suficiente. O repelente não cheguei a usar. Em setembro, quando caminhamos, as madrugadas eram muito frias. Não sei como é em julho. Conforme o for, talvez seja desnecessário o fleece e as camisetas de manga longa.

Esse peso extrapola o máximo de 10% do peso corporal que se recomenda, porém, entendemos que necessitávamos de todos os itens incluídos.

Para quem vai levar celular com câmera boa, pode deixar de fora a máquina fotográfica e seu carregador.

No mais, são ajustes para o tipo de pessoa e para a época do ano.

Você disse que irá em julho que é o mês mais quente e de grande movimento (férias).

Quanto ao peso, todos dizem que deve se limitar a dez por cento do peso do peregrino. Discordo dessa teoria porque creio que há outros fatores relevantes que são desconsiderados nessa teoria.
Veja a seguinte situação: Duas pessoas com a mesmo sexo, mesma idade e mesma altura. Uma delas está com o peso ideal de 73 kg (IMC) e frequenta academia, faz alongamentos e exercícios aeróbicos. A outra pessoa está com 81 kg (excesso de 8 kg segundo IMC) e tem uma vida sedentária. É óbvio de que se essa segunda pessoa levar uma mochila de 8,1 Kg, estará sobrecarregando muito mais seu organismo do que a primeira pessoa se aquela levar uma mochila de 11 kg.

Abraços.